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Blog do Leo Lasmar

Blog do Leo Lasmar – O 7 x 1 nos ensinou que temos muito ainda que evoluir em todos os aspectos

Postado em 01/06/2020 13:05

Onde você estava no quarto gol da Alemanha no 7 a 1, em 08 de julho de 2014? Você chegou a ver o quinto gol ou desistiu antes da hora? Pois a reprise da maior vergonha de uma equipe na história do futebol no SporTV, nesse domingo (31), foi a primeira vez de muitos. Primeira vez sem desistir do jogo, com a cabeça mais fria ou sem o frenesi de uma Copa do Mundo.

Foi também a primeira vez que boa parte dos brasileiros entenderam que futebol tinha mudado. Que já não bastava mais os melhores jogadores, que era preciso mais que um técnico motivador ou só deixar que o talento decidisse na frente. Foi o choque de realidade para a era do futebol tático.

Essa era não começa em 2014. O futebol sempre foi um jogo tático. O que o 7 a 1 deixou claro para todos é que o futebol evoluiu em complexidade, preparo e organização. Já não bastava mais ter um craque que decide na frente como Romário ou Ronaldo. Já não era mais suficiente achar espaço para os melhores jogarem como em 1970. Ou sempre ir para a frente como em 1982. Hoje é preciso ter a melhor equipe.

Você percebeu algo de diferente nos dez primeiros minutos?

O Brasil teve quase 60% de bola nesse período e atacou a Alemanha, que ficou fechadinha lá atrás. Quando isso acontece, todo aquele ufanismo aflora: “somos o futebol-arte, vamos pra cima, eles são ruins e só se defendem”. Pois é, o erro começa aí. A Alemanha não só se defendeu. Ela enganava o Brasil.

Primeiro, os alemães deram espaço para que a Seleção se organizasse na saída de bola. Você vê claramente que Luiz Gustavo fazia uma linha de três com Dante e David Luiz. .

O Dante não tinha a bola porque ele conhecia os alemães. Ele tinha a bola porque o adversário sabia desde o início que ele era o jogador com menos capacidade de passe nessa linha de três. David Luiz e Luiz Gustavo eram os “armadores”, e o plano era simples: pressionar eles assim que recebessem a bola. Não deixar passar.

Mas veja que a Alemanha não marca ninguém. Não tem um desarme aí, um carrinho. Ela só fecha espaço. Todo mundo olha pra bola e tenta pensar a mesma coisa. Isso é trabalho em equipe: jogar sob uma mesma ideia o tempo todo para que o individual e o coletivo funcionem.

O Brasil também tinha suas armas, e Fernandinho sempre ajudava essa saída de três, como Paulinho tentava fazer. Ele se aproximava pra dar uma opção de passe a Dante. E a Alemanha sabia bem disso, tanto que quem estava mais próximo do setor – normalmente Kroos – acompanhava individualmente ele enquanto Khedira, Muller e Klose pressionavam a saída de três. Era uma medida de segurança: se alguém escapar, o Kroos tá lá pra impedir que o Brasil jogue.

E acontecia do Brasil escapar. David Luiz, Luiz Gustavo e Dante jamais jogariam na Europa se não fossem “bons”. Se não tivessem suas armas. Eles conseguiam sair dessa pressão algumas vezes, só que sem resultado. Porque Kroos estava lá como segurança, com um encaixe individual enquanto a Alemanha pressionava só o setor. Lahm e Howedes sequer aparecem: eles estavam com a linha de defesa, que avançava pra ficar perto do time.

Olha só a complexidade de movimentos, ideias e ações que um simples lance tem:

  • Os alemães pressionavam David Luiz e Luiz Gustavo se eles estivessem com a bola
  • Mas se a bola estivesse com o Dante, a marcação mudava e todo mundo esperava na zona
  • Kroos tinha a missão de vigiar Fernandinho como uma espécie de segurança se algo desse errado
  • E a linha de defesa ficava bem organizada e alinhada, assim provocava o impedimento se alguém desse um lançamento

Não foi acaso. Não foi apagão. A Alemanha sabia exatamente como vencer o Brasil.Tanto que o quarto gol nasce exatamente desse desenho explicado acima, que se manteve no 0 a 0 e em todos os momentos do jogo. A bola estava com Fernandinho enquanto Kroos faz o que ele havia cansado de fazer: pressionar para evitar que o time construísse. Olha a saída de três formada. Foi tudo estudado.

Eventos precisam de distância histórica para serem avaliados da melhor forma. Só saberemos o real impacto de Jorge Jesus quando ele sair do Flamengo. Passados quase seis anos, a triste realidade é que o 7 a 1 mudou muito menos o futebol brasileiro do que deveria.

Fernandinho continua sendo um grande volante. Não faz nem dois anos que Felipão venceu o Brasileirão no Palmeiras. Fred acabou de ser anunciado pelo Fluminense. Eles não deixaram de ser ruins ou bons. É nossa cultura que continua extremamente prejudicial a nós mesmos. A cultura de ficar elegendo heróis e vilões e não olhar o entorno, a mesma cultura de não dar tempo para que uma comissão técnica monte um time com a mesma complexidade da Alemanha, por exemplo. A mesma cultura de fechar estádios a torcidas, mas não punir quem briga no metrô. A mesma cultura de negar a ciência ou a razão.

Muitos clubes apostam em soluções simples – auxiliares, técnicos estrangeiros, novos jogadores, o software do momento. Nada dá certo, justamente porque a mudança é cultural. De nada adianta contratar Tiago Nunes e esperar que em dois meses ele faça o Corinthians jogar igual o Athletico. De nada adianta contratar técnicos portugueses sem as mesmas condições do Flamengo. De nada adianta copiar o modelo de jogo do Guardiola se a formação e as necessidades do clube não acompanham a ideia.

A cultura de personalizar processos é o verdadeiro 7 a 1 do Brasil. Acontece todo dia. No futebol, uma bolha da sociedade, acontece toda hora. Sabe quando alguém xinga o Tite e pede o técnico “da moda” no lugar dele? É dessa cultura que estamos falando.

A era do futebol tático não é só uma evolução do jogo. É uma evolução também da sociedade. Analisar o jogo parte de um pressuposto simples: ela não olha para o que um jogador é, ela olha o que ele faz. Ela não julga, ela entende. Ela é democrática e respeitosa. E igualitária. Não tem mais o jogador privilegiado e os operários que se sacrificam por ele. Todos fazem parte da mesma coisa: do jogo de futebol.

Quando que o Brasil vai, de fato, entrar nessa era? Qual outro 7 a 1 precisamos?

Fonte: Leonardo Miranda – Globoesporte.com

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